Por um Novo Cancioneiro

A canção de texto tem, na história comum do Brasil, da Galiza e de Portugal, um papel fundamental na difusão da língua, da poesia, do modo próprio de contar o que nos sensibiliza. E cria imagens que marcam gerações e mudam a nossa perceção do Mundo e da Vida.

Jograis do nosso tempo, herdeiros dos “cantores de cordel”, estão a criar um Novo Cancioneiro e reencontram nos palcos, na rua e, cada vez mais, na Internet, os atalhos de que precisam para projetar vozes e gestos e nos sensibilizarem com as suas histórias. Em edições cuidadas o seu trabalho pode agora fazer parte dos repertórios de qualidade dos grupos musicais e dos programas e propostas formais e informais de fruição musical.

A recente publicação de partituras antológicas, nomeadamente de José Afonso, Sérgio Godinho e Vitorino, e a edição em CD destes e de outros músicos permitem um acesso facilitado a estes repertórios.

A recriação enquanto processo de apropriação tem permitido a músicos de diferentes formações – do Jazz ao Rock, passando pelo Fado e pelos grupos de música popular – criar com novos públicos empatia e curiosidade por autores que marcaram a mudança musical portuguesa na década de 70 do século passado. Amílcar Vasques Dias, José Pedro Gil e Filipe Raposo terão talvez conseguido das mais interessantes e desafiadoras recriações da música de José Afonso.

As harmonizações para grupos corais de autores desse Novo Cancioneiro merecem, no entanto, uma referência especial por se destinarem maioritariamente a corais a capella, sendo muitas delas acessíveis a corais amadores em que cantam milhares de coralistas, com a ajuda competente de uma nova geração de maestros a quem devemos a renovação do movimento coral. Fernando Lopes-Graça terá sido dos primeiros a harmonizar uma música de José Afonso, a “Grândola, Vila Morena”, em manuscrito datado de 1977.

Neste concerto comemorativo dos 30 anos da Associação José Afonso, pedimos aos corais participantes que escolhessem algumas (2 ou 3) das dezanove harmonizações que reunimos. Vamos poder escutar trabalhos de Alfredo Teixeira, Carlos Garcia, Carlos Marecos, Eduardo Martins, Eduardo Paes Mamede, Fernando Lapa e José Firmino. E esperamos que em futuros concertos, mais harmonizações de músicas de José Afonso – de Augusto Mesquita, Eurico Carrapatoso, César del Caño, Paulo Brandão e Gonçalo Lourenço – sejam incluídas. O desafio é lançado a todos os compositores.

Para tal, a Associação José Afonso tem a intenção de disponibilizar uma edição cuidada de harmonizações da obra de José Afonso que permita o seu conhecimento e fruição por todos os grupos que o desejarem.

Domingos Morais.