Calvet de Magalhães

Calvet de Magalhães e o Movimento da Educação pela Arte*

Maria Emília Brederode Santos

O prof. Calvet de Magalhães foi um dos pioneiros da Educação pela Arte em Portugal, distinguindo-se pela forma como aplicou, concretizou e alargou, a Educação pela Arte, na medida em que foi sobretudo um homem da educação, da escola, da escola pública – da escola oficial, como então se dizia – que, invulgarmente para a sua época, atendeu à própria escola como instituição, como organização – e não só ao currículo, à turma, ao sistema educativo. Introduziu esse outro objecto de estudo – a escola – que só muito mais recentemente se tornou objecto das Ciências da Educação.

Mas comecemos pela Educação pela Arte. Refiro-me ao movimento que teve origem teórica no livro publicado por Herbert Read em 1943 – Education through Art – e que nos anos seguintes se foi tornando conhecido, traduzido (em castelhano, por exemplo, foi traduzido em 1955 e foi a partir dessa tradução que se tornou muito mais conhecido em Portugal) e deu origem a um movimento internacional com o mesmo nome.

O conceito de Educação pela Arte

Como diz o professor e pedopsiquiatra Arquimedes da Silva Santos, “…nunca propusemos qualquer estrita definição, antes aceitando uma concepção geral que inter-relacione conceitos vagos e vastos de “educação” e de “arte” numa perspectiva de quem considera, sobretudo e para além das palavras, a importância da actividade pedagógica pelas expressões artísticas no desenvolvimento, bio-sócio-psicologicamente, de crianças e adolescentes” .

Sem nos atermos a um conceito restritivo de educação pela arte, podemos no entanto deduzir três ou quatro características desse movimento:

1. A Educação pela Arte atende sobretudo à formação da personalidade que se processa de uma forma considerada “contínua e ascendente” ao longo da vida. Os militantes da Educação pela Arte defendem, portanto, uma Educação pela Arte generalizada, desde o jardim de infância até ao ensino superior.
A Educação pela Arte visa, em primeiríssimo lugar, o desenvolvimento harmonioso da personalidade humana, isto é, não visa prioritariamente a formação de artistas (embora o possa fazer), nem a “formação de novos públicos” (embora também tenha esse efeito), nem a facilitação de outras aprendizagens ditas mais académicas (embora o faça também certamente). Mas o que visa realmente é contribuir para o desenvolvimento mais global da personalidade de todo o ser humano.

2. A Educação pela Arte implica uma pedagogia activa, procura promover a criatividade da criança e do jovem, fomentando a sua expressividade e dela partindo para uma educação estética e para outras situações educativas.

3. Considera-se as actividades expressivas, criativas, artísticas, estéticas “intimamente implícitas na formação integral e humanista da criança e do adolescente”, ou seja como que se inserindo numa dimensão ética da educação.

4. Finalmente, creio existir ainda um outro aspecto da Educação pela Arte – o desenvolvimento afectivo, emocional – que muito interessou pedopsiquiatras como João dos Santos e Arquimedes da Silva Santos, nele assentando como que uma “arteterapia”, mas que também encontrou eco em Calvet de Magalhães e na sua escola Francisco de Arruda.

É costume identificar dois períodos fundamentais no desenvolvimento do movimento da Educação pela Arte em Portugal: as décadas de 50 e 60 seriam as da “sementeira” e as de 70 e 80 corresponderiam, senão à colheita, pelo menos à assunção de compromissos oficiais.

Os anos de sementeira

Examinando a década de 50, destaquemos o ano de 1956 como um ano marcante na educação:

É em 1956 que Manuel Maria Calvet de Magalhães é nomeado director da Escola Elementar Técnica Francisco de Arruda.

É também em 1956 que é fundado o Centro Infantil Helen Keller, dedicado á educação integrada de crianças cegas e amblíopes, onde se desenvolverá, graças sobretudo a Mª Amália Borges de Medeiros, durante muitos anos, um núcleo de pedagogia activa que será o embrião do Movimento da Escola Moderna em Portugal, permitindo a formação de muitos pedagogos e militantes do chamado MEM.

E é ainda em 1956 que é fundada a Associação Portuguesa de Educação pela Arte, presidida pela professora Alice Gomes, com pedopsiquiatras como João dos Santos e Arquimedes da Silva Santos, pintores como Almada Negreiros e Nikias Skapinakis, musicólogos como João de Freitas Branco, e… Calvet de Magalhães que terá sido um dos principais promotores da Associação.

Nikias Skapinakis dá-nos conta da existência de “dois grupos em Lisboa” no “movimento que se gerou à volta dos conceitos de desenho e pintura livres”: “O primeiro era formado pela prof. Cecília Menano (escola Ave Maria e atelier particular), pelo psiquiatra Dr. João dos Santos e ainda pelo professor brasileiro Augusto Rodrigues. O segundo grupo assentava na colaboração de Calvet de Magalhães com a prof. Alice Gomes (Liceu Francês)”. Nikias Skapinakis que, entre 1957 e 61, foi professor de “Cursos Livres de Educação Artística” no Liceu Francês Charles Lepierre e também de Educação Plástica e de Didáctica do Desenho, além de corientador de estágios das alunas na escola Beiral, no Instituto de Educadoras de Infância (dirigido por Mitsa), colaborou com os dois grupos .

Em 1957, Nikias Skapinakis para avaliar e denunciar a situação retrógada do ensino escolar, organizou um ciclo de conferências, subordinado ao tema “Educação estética e ensino escolar”, com intervenções de vários educadores e teóricos da Educação pela Arte, em Lisboa, na Sociedade de Belas Artes e de novo no Porto, no Ateneu Comercial. Os respectivos textos viriam a ser publicados quase 10 anos depois, com prefácio de Delfim Santos.

Os anos 60, se continuam a ser anos de “sementeira”, constituem uma espécie de ponte para as décadas seguintes dos compromissos oficiais, através do papel assumido pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Em 1961 é fundado o Instituto Gulbenkian de Ciência; em 62, o Centro de Investigação Pedagógica, situado naquele Instituto; em 1965, Arquimedes da Silva Santos entra no Centro de Investigação Pedagógica com a missão de estudar a psicopedagogia da educação pela arte e formas de a concretizar. Ao mesmo tempo, a Fundação vai ensaiando métodos novos de Iniciação Musical (designadamente de Orff e Willems).

Nesses anos, Calvet de Magalhães alarga a sua actividade a cada vez mais novos campos educativos, designadamente aos materiais audiovisuais: em 1964 é nomeado director do Centro de Estudos de Pedagogia Audiovisual do Instituto de Alta Cultura e em 1965 vogal do Conselho Pedagógico do IMAVE. Mas nem por isso se desliga do movimento da Educação pela Arte, promovendo durante vários anos as exposições “O Natal visto pelas crianças” que mobilizaram escolas, alunos e professores pelo menos de 1964 a 68.

A década de 70

Entretanto, na entrada da década de 70, a Fundação C. Gulbenkian continua a ter um papel preponderante no ensino artístico e na educação pela arte. Madalena Perdigão promove um grande colóquio sobre o projecto de reforma do ensino artístico e, em 1971, é criada a Escola Piloto (mais tarde designada Escola Superior) de Educação pela Arte já com foros de aceitação oficial.

O movimento da Educação pela Arte fica, a partir daqui e durante os cerca de 12 anos que durou esta instituição, muito centrado nesta Escola onde se reuniu uma plêiade de professores que levou a cabo uma experiência extremamente inovadora de educação pela arte mas sempre em condições de grande precariedade e instabilidade .

Entretanto Calvet de Magalhães continua à frente da sua escola, conduzindo-a na transformação em Escola Preparatória a partir de 1968. Como pioneiro que era, mas também homem de acção, de realização, participou na maioria das experiências pedagógicas então ensaiadas, muitas vezes sendo mesmo seu promotor – como as da co-educação, integração de alunos com necessidades educativas especiais, os 7º e 8º anos experimentais e a utilização de meios audiovisuais – tornando a Francisco Arruda cada vez mais “uma escola de referência”.

Manuel Calvet de Magalhães valorizou muito a Educação pela Arte, a expressão artística dos alunos, a arte como ponto de partida para outras aprendizagens, para enriquecimento individual e colectivo. Soube concretizá-la na organização da escola, desde as paredes cobertas de citações e de pinturas dos alunos – e que nenhum ousava estragar – do que ele bem se orgulhava – à abertura da escola aos pais, ao bairro, à comunidade através de sessões culturais aos Sábados de manhã; desde os clubes de interesses que promovia à importância que dava à palavra, às linguagens, à expressão dos jovens e à forma como aproveitava os interesses e talentos dos professores que contratava. Rui Canário, por exemplo, recém-licenciado mas colaborador no boletim cooperativista de António Sérgio, foi logo convidado para animar o clube de jornalismo e sintetiza a sua passagem pela Francisco Arruda dizendo” Foi na Francisco Arruda e com Calvet de Magalhães que aprendi a ser professor” .

Em defesa do direito à educação

A sua causa era a Educação. E isso está bem espelhado num texto notável, escrito em Fevereiro de 1974, “O direito à educação” onde, a propósito de celebrar os 25 anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem, defende que para o desenvolvimento de Portugal há que aumentar a rede escolar, prolongar o ensino obrigatório e melhorar o nível educativo da população portuguesa. Faz um breve historial da evolução do sistema educativo em Portugal, defende “a notável reforma de 1911”, denuncia “as leis que restringem direitos já adquiridos pela criança à educação” promulgadas pela “2ª República” e que considera “um atentado aos direitos da criança à educação!

E, para desenvolver a educação e manter a “frescura criadora da criança no estudo” – e aqui retomamos a linguagem da educação pela arte – é necessário “escolas progressivas (…), um meio educativo que favoreça (o despertar de todas as possibilidades manuais, intelectuais e artísticas e permitir-lhes adquirir um conjunto de conhecimentos e técnicas assim como o senso social”.

Um texto da maior actualidade!

* Com base na intervenção feita na homenagem a Manuel Calvet de Magalhães, organizada pelo Agrupamento de Escolas Francisco Arruda e pelo seu director Mário Godinho. Agradeço ainda a Domigos Morais, Helena Ferraz e Mª João Craveiro Lopes da direcção do Movimento Português de Intervenção Artística e Educação pela Arte seus úteis contributos