Humanizar a Universidade

Quando recordo a Universidade do séc. XX e o que de melhor contribuiu para me tornar no que sou, constato ter sido quase sempre fora das cadeiras dos curricula que nasceram os desafios e as vivências que me fizeram relativizar o egoísmo e a competição presente em percursos académicos desenhados para distinguir os que aprendem como aceder a mordomias e privilégios.

Em 1967, quando o GEFAC foi criado, participava em muitas atividades promovidas pelas Associações Académicas de várias Faculdades e por Associações e Cooperativas que me deram acesso a domínios ignorados nos cursos que frequentei.  Ciências e Artes que tinha abandonado no final do secundário, voltavam a espevitar a minha curiosidade em domínios tão distantes como a Astrofísica e a Física Nuclear, com o Mariano Gago, o Cinema com o Mário Vieira de Carvalho, a música, o teatro e a literatura tradicionais com o Lopes-Graça, o Michel Giacometti, o Viegas Guerreiro, o Veiga de Oliveira, o Francisco d´Orey, entre outros.

Sem diplomas, nem créditos a contabilizar, com responsabilidade acrescida pelo compromisso assumido perante grupos democráticos, aprendíamos a estar com colegas de diversos cursos, com histórias pessoais e origens sociais diversificadas (tornadas possíveis por uma Universidade cada vez mais aberta). Cada projeto era sempre objeto de confrontos,  cedências, negociações de que resultaram homens e mulheres mais capazes, atentos e disponíveis para as mudanças que ajudaram a construir o Portugal democrático que hoje é uma realidade. Aprendemos que a ação política e transformadora passava também por estes grupos.

 O GEFAC é um dos alfobres que contribuíram para humanizar a Universidade. A cultura tradicional foi, pela sua ação esclarecida, dignificada em oposição ao folclorismo bacoco do Estado Novo e das pobres Federações normativas do que o Povo pode, deve ou não fazer. A Etnografia e Folclore de que se reclama nada têm a ver com o passado de ranchos protegidos pela FNAT e com fundamentalismos e autenticidades que apenas existem nas mentes perversas de quem não aceita a mudança sempre presente na cultura popular.

Mas talvez seja o papel do GEFAC enquanto divulgador de conhecimento e práticas culturais, o que melhor caracteriza o seu contributo para a formação de várias gerações que se reconhecem na sua postura ética irrepreensível. Quando será que algumas instituições responsáveis por acervos que mereciam ser melhor conhecidos se convencem que não podem retê-los indefinidamente? Refiro dois que conheço: Os cadernos de campo de Jorge e Margot Dias estão há mais de uma década no Museu de Etnologia em caixotes fechados à espera sabe-se lá de quê. E os registos áudio de Veiga de Oliveira da década de 1960 que eu tinha colocado para consulta na Universidade do Minho, foram retirados por ordem de responsáveis do mesmo Museu, sem uma alternativa razoável. Lamentável.

O desafio para os próximos 50 anos é a diversificação das iniciativas, reafirmando a necessidade de vivenciar no corpo e na voz a cultura tradicional, através da dança, do teatro, da música e de todas as artes que dão sentido e enriquecem o quotidiano das comunidades. Resistindo, hoje como no passado, a todas as tentativas de domesticação e normalização do que é por natureza livre, imprevisível, revelador do que de melhor somos capazes quando nos regemos por princípios de solidariedade e aceitação da diversidade.

Domingos Morais, Junho de 2016